domingo, 4 de agosto de 2013

A última carta .

Olá,

Esta talvez seja a última vez que escrevo. A última vez que choro. Que sofro.
Talvez seja a etapa final. Cheguei onde sempre quis chegar, ao fim. Ao meu fim.
A minha vida já foi traçada antes de nascer, e desde que nasci que o meu objetivo sempre foi este, morrer. Foi uma vida curta? Sim, foi. Mas sofri demais. Quase 15 anos da minha vida passados a sofrer, a desejar morrer. Mas agora, olho para trás, para tudo o que já passei e sinceramente posso dizer que me orgulho. Fui forte, até demais por vezes. Ajudei os outros mesmo quando quem mais precisava de ajuda, era eu. E não me arrependo. Já estou condenada a sofrer. E se eu já não tenho salvação, ajudo quem tenha, porque não desejo isto a ninguém. Desde cedo que senti na pele o que era a dor de viver. Porque viver é sinónimo de sofrer. E desde cedo que aprendi isso. Digam-me, o que é suposto fazer aqui, quando a minha mãe até mesmo longe não me suporta? Quando o meu pai já tem outros dois filhos com quem se preocupar e nem se lembra de mim? Quando sou obrigada a passar a maior parte dos meus dias em casa da pessoa que mais me fez sofrer? Quando oiço constantemente insultos, críticas e outras coisas horríveis vindas da minha própria família? Quando os meus próprios familiares, seres do meu próprio sangue me chamam todo o tipo de nomes, sem motivo? Quando são eles os primeiros a pisarem-me no chão que nem eles merecem? Quando só sabem apontar os meus defeitos, e nem as minhas qualidades reconhecem? O que é suposto fazer aqui, quando todos se cansam de mim? Quando nem chorar me alivia? O que é suposto fazer aqui, sabendo que apenas tive 2 anos de felicidade, quando nasci, e que nem desses tempos me consigo lembrar? Quando eu própria me odeio, a mim e ao espelho? O que faço aqui? Nada. Já nada me prende aqui. Ando a pensar em escrever esta carta há muito tempo. A última carta. Só não o fiz, porque ainda tinha objetivos por cumprir, missões por completar. Ajudar os outros, a minha primeira prioridade. Fazer os outros felizes, fazê-los perceber que ainda têm motivos para sorrir. E agora? Bem, agora já estão todas as missões cumpridas, todos os objetivos atingidos. Apenas uma falhou. Eu ser feliz, eu encontrar um rumo que me levasse á felicidade. Mas apercebi-me que essa porta tem fechadura, e nem todos têm a chave. Alguns, encontram-na no caminho. Eu encontrei-a, mas depois ... bem, depois perdi-a. Perdi a chave, perdi os motivos para continuar no caminho que me levaria a um beco sem saída, perdi tudo. Até mesmo a mim. Perdi também a força. Fui forte. Agora? Não sou mais. Mas o que fazer quando se está de pés e mãos atadas? Eu estou assim, no meio do oceano, a afundar. Cada vez mais fundo. Cada vez mais longe da superfície, do caminho, da chave, das respostas que procurei desde sempre. E a minha visão cada vez mais turva. Agora, aterrei. Cheguei ao fundo. Vejo todas as minhas memórias passarem-me à frente, como pequenos peixes. Vejo tudo o que me prendia á terra, e que agora me fez afundar até ao fundo do mar, como uma âncora. Na verdade, é isso que me sinto. Uma âncora. Presa em mim própria. A viver um pesadelo interminável. E os peixinhos continuam a passar. Cada vez mais turvos. Perdi tudo, agora ... até o oxigénio. Mas cheguei ao fim, onde queria chegar. Aqui estou eu, ancorada ao que é a minha maldição, chamada vida. E como viver é sinónimo de sofrer ... já sofri de mais. Também já vivi de mais. Agora, só falta despedir-me dos peixinhos, das memórias, do passado, do que vivi, de mim. Agora, só falta fechar os olhos, e completar o meu único e último objetivo. Isto é como um jogo, e cheguei ao último nível. À ultima etapa. Estou a um passo de entrar no portal que me vai levar para o céu. Vou pular nas nuvens, vou ver de novo quem perdi em vida. E acredito que ainda vou estar mais viva do que estou agora. Vou ser mais feliz, mais eu. O que estava turvo, agora está preto. Não vejo, não sinto, não vivo ... não sofro. Um último peixe passou, com a última memória que vi. Os meus olhos estão-se a fechar, e agora sim posso dizer. Adeus.


* Atenção, isto é apenas um texto, não se assustem. Eu não estou a passar por isto, mas há quem esteja. Com este texto, só quero que entendam o quanto as palavras magoam quem as ouve. Ponham-se no lugar destas pessoas e imaginem. Eu pus-me no lugar delas, e ao que conduziu? A este texto. E digo-vos, senti-me como estas pessoas, senti a dor delas, o seu desgosto, o seu desespero. Nunca escrevi nenhum texto tão sentido como este, então eu peço-vos: não levem pessoas a este caminho, não as façam chegar a este ponto. Só isso. *

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